sábado, 24 de agosto de 2013

Aline





A mão direita de Aline sempre foi estranha, as linhas do amor, saúde e da vida estavam todas embaralhadas e se sobrepunham umas as outras. Desde pequena Aline acreditava que aquilo poderia significar um marco importante, talvez um grande acidente, uma paixão louca que termina em morte, ou uma doença infectocontagiosa que mataria toda uma cidade. Aline sempre teve uma vida muito doce, sempre carregava no peito uma névoa que de forma descontrolada, dividia com os amigos, fosse nos bancos de algum jardim, em alguma casa isolada ou até mesmo nos ritmos de alguma música. Aline acreditava com todas as suas forças que era muito mais leve do que esse mundo permitia ser e que suas asas foram cortadas antes mesmo de nascer. 
" Veja só mamãe, essas marcas em minhas costas foram as asas que me cortaram! Mas eu creio que elas também podiam ter nascido no meu pé".
Aline cresceu completamente fora do tempo, na escola falava de um futuro muito distante, assustava os professores e os amigos. Sempre falavam que o mundo da Aline era provavelmente era a Lua "Mas é nosso satélite natural" contestava.  Em casa o que reinava era o passado recente, falava de guerra, de evoluções, devastações, curas e sempre era interrompida "Querida, pense na faculdade que te dará mais liberdade."
Dessa forma meio aérea e tentando descobrir os mistérios do mundo e da vida, Aline cresceu. Carregou junto a ela todas as teorias malucas e o olhar abobado que tinha pelo mundo. Continuou acreditando em alienígenas e que um dia conseguiria se tele transportar, nem que ela tenha que nascer duas vezes para isso. Agora, depois da adolescência e descobrindo a juventude, Aline mescla suas ideias com a névoa que fica ao seu redor e assim tudo ganha mais cores, mais caminhos, mais risadas e até mesmo fome ou sono.  
Aline descobriu todo o mistério que a rodeava quando sentou no banco de uma pracinha e abriu a mão direita para a cartomante. "Olha para essas linhas, elas se mesclam tanto! E se eu encostar a direita na esquerda as linhas se encontram, o que você consegue ver nessa bagunça?". A cartomante logo viu que a menina era meio lunática e sabia que embora muitos a achem maluca, era o tipo de raridade que não se jogava fora. "Ta vendo essa linha aqui? Essa é a linha da vida e aquela outra lá do amor e mais essa aqui é a sua saúde. Ta vendo como sua linha da saúde é longa? Já a sua linha da vida é ao contrário, você sabe o que isso significa?"
Com toda a paciência do mundo Aline levanta e como se fosse o seu ultimo segundo de folego afirma "Eu sempre soube que eu estava morta" e mais uma vez deixa outra pessoa sem saber se ela era um personagem ou uma alucinação.

Muitas pessoas procuram por Aline e quando encontram é sempre uma metamorfose, alguns mudam o estilo de vida, outros fazem músicas que são cantadas por gerações e gerações e sempre tem os que a perguntam o sentido da vida. Aline sempre reúne os amigos e o ambiente sempre fica mais suave com ela perto, os maiores batuques foram feitos com sua presença, até os trabalhos escolares ficavam mais amplos e completos. Aline é amiga de todas as pessoas, professores, policiais, bombeiros, pai, mãe, estudante. Aline é uma grande risada e uma fome terrível. Acreditem, a maioria das pessoas já encontrou ou vive com Aline.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Não fica.


Não fica, não embola sua roupa no chão para demorar mais tempo, não me olha daquele jeito suplicante e caloroso que não é isso que eu quero. Não fica, por que eu detesto ter que pensar em alguém durante o dia e só piora se for involuntário. Não fica, eu não nasci de uma música ou filme e detesto esse romance barato que as vezes me pego criando, não fica por que o meu apego é desapegado e o meu ciúme beira a indiferença quando você tá olhando.  Vai embora, eu tenho péssimas manias que eu adoro e eu sei que pessoa consciente no mundo iria conviver, vai embora que tempo é dinheiro e eu pouco me importo quanto eu to ganhando. Vai embora que eu não quero ter lembrança nenhuma daquela viagem inesquecível que a gente fez e que você não gostou, por que só eu tava lá.
Não fica, por que eu não vou aturar suas mudanças de humor, nem tenho paciência para a saudade que você vai causar, não fica por que a geladeira tá a zero e eu detesto cozinhar. Não fica não, não quero me apegar a sua conchinha, nem ver a marca do teu corpo na minha cama, não quero ligar a TV e saber que você ia odiar aquele programa que eu adoro e pedir pra mudar de canal. Não fica por que não quero fazer outros planos, não quero ter visão nenhuma das próximas horas da sua presença. Vai embora se quiser ir e senão quiser, vai também. Não quero achar no meu armário aquela sua blusa velha que eu adoro dormir, vai embora que já deu sua hora, eu sei como o trânsito fica na volta pra casa. Isso, vai para sua casa, onde tudo é seu e me deixa no meu canto aonde tudo que eu olho e toco é meu.
Na verdade, fica. Fica mais um pouco só para eu saber que eu só me pertenço, que teus braços são aconchegantes, mas quentes demais pro calor que fica nessa cidade. Fica um pouquinho só para eu saber que teu corpo não faz par com o meu e que eu detesto ter que ceder uma gaveta do meu criado-mudo para alguém. Fica só mais um minuto, não, fica apenas mais um segundo para eu te ver e saber que apenas nos meu olhos o futuro vai nascer.

sábado, 13 de abril de 2013

Os últimos cinco minutos

Fica mais, não vai embora tão depressa, deixa tua camisa amarrotada no pé da cama e deita mais um pouco comigo. Até faço o café que você tanto gosta, espera só mais cinco minutos. Vem conversar comigo na janela, com sua xícara quente na mão e outra envolvendo minha cintura, me diz que o dia nasceu bonito e o sol nunca esteve tão forte. Espera a chuva passar, ela ainda nem começou.
Deixa eu sentar no teu colo mais uma vez e te entregar as meias para você ir embora, teu sapato ficou perdido em algum canto do meu quarto, procura por ele mais cinco minutos só para eu te admirar mais um pouco. Pega o celular e finge que me manda uma mensagem, fica só mais cinco minutos pensando em mim e ponderando se vale a pena tantos minutos assim.
Vai embora se quiser ir, a porta nem sempre estará aberta e o relógio tampouco vai parar também. Coleta todos os últimos cinco minutos e guarda no bolso da calça e quando você menos esperar vai lembrar do que se passou.
Os últimos cinco minutos não me serviram de muita coisa, não deu tempo de dizer que por você eu teria toda a paciência do mundo e que ficaria irritada se você esquecesse de mim, que por mais desorientada que eu seja eu sempre focava nos seus olhos que gritam o seu devaneio. Vai-te embora agora por que embora a saudade exista, eu sei que tempos melhores virão. E sempre, eu disse sempre existe tempo para quem quer ficar.

terça-feira, 5 de março de 2013

Lembrar ainda é não esquecer.

Essa minha vontade de nada
Apenas deitar e ver seus olhos rolando
Passando pela embriaguez e sobriedade
De um amor que a sua dureza não me deixa contemplar

Eu cruzo as pernas mais uma vez e abro meus braços para você
Eu lembrei dessa vontade insana de te ter aqui, pertinho de mim
E percebi que lembrar mesmo que por pouco
Ainda é não esquecer
Acabo te mantendo guardado neste meu coração louco

Eu fujo, fujo rápido das palavras cortantes e da sua língua navalhada
Fujo pois teu coração ainda que maior, é mais duro e opaco que o meu
Fujo para lembrar como eram os dias antes de você
E percebo que lembrar mesmo que por uma vez
Ainda é não esquecer.

A porta agora se encontra fechada, presenteada pelo seu cadeado
Do lado de fora ainda resta você, com a mesma cara de tédio enjoado.
Todas essas imagens, figuras e personagens me fazem perceber
Que lembrar, mesmo que seja quase nada ainda é não esquecer.

As voltas que teu coração dá, sempre entre o sim e o não
Me fazem bater a cabeça e me nocauteiam no chão
Lembrar do que poderia ter sido e não foi, não é esquecer
É magoa contida, aflição mal-vinda de quem vem sem querer me ter.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Entre pontes e tijolos.



Hoje de manhã passei em frente a uma construção, estavam acabando uma casa pequena e simples dessas que uma família inteira mora e ainda agradece pelo teto em suas cabeças. Tinham tijolos espalhados pelo chão, no meio deles vi uma esperança que ninguém mais viu, vi uma promessa de vida melhor, de novos sonhos e rotinas... Atravessei a minha ponte.
No meu percurso, eu podia ver muitas coisas através do vidro: Pessoas indo trabalhar, poças d’agua sendo secas pelo sol que já nascia, um novo dia, um novo olhar, novas pessoas dentro de velhas roupas, meu próprio reflexo. Quando  eu cheguei no meio do percurso vi uma outra casa sendo demolida, metade dela já estava no asfalto já não existiam tijolos, apenas entulho, quantas pessoas moraram ali? Quantas lembranças um simples tijolo com cimento pode proporcionar? Pensei o dia todo nisso, o futuro e o passado se mesclam de uma maneira que o presente deixa de existir e eu agradeci em voz baixa por poder ter todos que amo a minha volta.
Eu já tive minha casa demolida, explodida com uma bomba, vi seus pedaços indo pro ar e depois baqueando no chão, vi as janelas indo embora com a porta trancada, o tapete de boas vindas já não existia mais, minha casa se foi, mas minhas lembranças continuam vivas e coloridas. Eu perdi alguns quadros antigos que eu amava com todas as minhas forças e foram embora sem eu poder contempla-los por uma última vez, o telhado que nos protegia foi arrancado com o vento e talvez proteja outra casa agora, preserve o assoalho de uma família que precise mais que a minha.  Os muros foram os últimos a caírem, mas esses eu mesma fiz questão de tirar, tijolo por tijolo, briga por briga, lembrança por lembrança. Recolhi seus pedaços do chão e prometi a mim mesma que este muro que eu desfiz não ira para minha nova casa, não irá tampar minha visão, nem mesmo impedir alguém de entrar. Pois agora, eu não tenho uma nova casa.  Eu tenho um novo caminho, uma nova ponte que eu fiz com os tijolos que me privavam do mundo, eu tirei os olhos chorosos e recoloquei o sorriso, colhi os últimos frutos da minha jabuticabeira velha e doce, ignorei os problemas do passado, selei as brigas antigas, amadureci meu futuro.
Não importa se é uma casa, uma ponte ou um avião que você deseja, o novo sempre vai existir. Portas podem estar trancadas ou abertas, assim como o seu coração. Limpa a poeira do móvel antigo, acrescente mais uma foto na sua parede, coloca mais água no feijão que sozinho ninguém vive, sorrisos não foram feitos para serem amarelos e nem os olhos escondidos em óculos de sol. Entre pontes e tijolos eu fui ao chão e também ao céu, eu tive ombros e mãos para me ajudar, assim como pés para me pisar, de nada adianta o futuro se com tantos tijolos é o muro que você prefere. Diga sim e sinta pela primeira e ultima vez sinto o vento do verão lhe alegrar o rosto.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

A margem de si mesma.



Guilhermina tinha medo, sempre tinha muito medo de se tornar a pessoa que a segurava na foto de quando era bebe. Guilhermina sempre cresceu á margem de si, vendo no espelho os mesmo traços de seus pais e escutando dos irmãos menores como ela era a mais parecida com eles.  Até mesmo a ponta desgrenhada de seu cabelo era uma acusação do gene de sua mãe, tudo ao seu redor mostrava que ela era apenas uma cópia 20 anos mais nova de seus pais.
-Você é a sua mãe inteira.
-Mas a loucura, a loucura certamente é herança do pai!
-Veja até o modo de andar é igual!
Guilhermina já não sabia se a força da convivência a tornava igual a seus parentes ou se tinha alguma parte do seu DNA que a mandava ser igual aos seus progenitores.  Tinha medo, tinha muito medo de ficar presa a todos esses espelhos que refletiam como ela iria ficar, sempre teve muito medo da língua afiada dos outros parentes conjurando que toda a história ia se repetir.  Nadou contra a corrente, resolveu ser de espirito livre, esquecer quem a rodeava e se fechou para o mundo, seu eterno medo de se tornar como seus pais estava  concretizando-se. Guilhermina viveu com os índios, teve amantes de todas as cores e sabores, se apaixonou e quebrou alguns corações. Guilhermina viveu muitas décadas em apenas duas e agora entendia quando falavam de sua loucura, entendia quando seu pai ria de seus sonhos impossíveis, quando sua mãe desdenhava da sua capacidade de se virar sozinha.... Começou a entender tudo e a solidão que tanto aplacava aquela família passou a ser amiga de seu peito.
Guilhermina era uma cópia exata de seus pais e por isso todos esperavam as mesmas falhas,  as mesmas fraquejadas e ao mesmo tempo despejavam em suas costas a visão de uma realidade melhor. Como era difícil interpretar o papel de uma contradição: Ora xerox, Ora rascunho. Guilhermina não queria nada disso! Desejava do fundo das suas entranhas ser ela mesma, um desenho mal feito e rabiscado de uma pessoa única, diferente de tudo que ela já viu e não cópias exatas que passam de geração em geração... A loucura, a gana, a inteligência, a arrogância, quantas coisas não circulavam em seu sangue e chegavam na íris do seu olho, que por algum acaso era igual a de seu pai.
Há certas coisas na vida que nunca podemos compreender, nem se fossemos imortais poderíamos desvendar certos mistérios. O egocentrismo humano sempre foi e sempre será um dos maiores egoísmo de família; Seja maduro, você me lembra tanto quando eu era jovem; o seu pai também dizia isso; a beleza de sua avó. O egocentrismo humano  sempre foi e sempre será  um dos maiores erros naturais que cometemos.
 Há certas coisas na vida que nem mesmo oito décadas trarão o conhecimento ou a sabedoria, precisamos da dúvida dando facada nos nossos pulmões, necessitamos descontroladamente, desesperadamente, exasperadamente achar a cura para todos os males. Nós nunca acharemos.
Guilhermina percebeu, com muita dor no coração, que não adiantava mudar o sorriso, os planos futuros, ou o olhar: Sempre estaria à margem de si mesma.  Podia pintar os cabelos de amarelo, verde ou roxo, ser uma rebelde, queimar dinheiro em praça pública ou sair pela rua que ainda iriam dizer “tinha que ser filha de quem é”. Guilhermina compreendeu com um certo penar que ela era a expectativa da vida fracassada de seus pais, que o futuro dela na verdade pertenceria a eles e que sua vida nunca fora sua verdadeiramente. Resolveu por um único minuto ser ela mesma, escreveu uma bela carta pedindo desculpas por não ser um futuro brilhante, por lembrar uma juventude imatura, por nunca ter sido ela mesma. Implorou aos pais para não depositarem tanta emoção nos irmãos, deixarem os menores serem como quiserem. Por fim, superou seu último medo: O de altura. Arremessou-se do vigésimo quinto andar, sentiu pela última vez o frio na barriga, sentiu o medo e o desejo de continuar caindo para sempre, sentiu pela última vez a sensação de ser feliz. Guilhermina preferiu morrer a encarnar um papel que não lhe cabia, Guilhermina decidiu ceifar a própria vida a viver a margem de si mesma. Guilhermina agora vive nos olhos lamacentos de seus pais e suas cinzas voam o mundo todo. Teve em sua morte tudo que quis ter em vida e teve em sua vida sua toda e completa morte.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Navalha na carne.


Eu vou sussurrar em seus ouvidos e você escutará apenas a força dos seus desejos. Por hora, eu vou te consumir e te fazer implorar por línguas afiadas que rasgarão sua pele, somente agora esse espelho irá refletir toda angustia dentro do seu peito. Eu vou esperar a noite cair para ver seus olhos fechados se abrirem em minha presença, eu vou contemplar suas pernas e marcar seus batimentos cardíacos só para afirmar que a minha pele te nocauteia.
Eu serei a cura para todas as suas enfermidades, o remédio para a suas feridas... Eu irei te curar e te adoecer novamente. Eu vou te mostrar os meus dentes e o medo terrível que ocupa a minha boca, e a tua saliva pura e inocente passará a ser vil e vermelha, como sangue em tuas veias. Eu vou te derrubar no chão e sentir o impacto do seu corpo na madeira, e verei a sua agonia em silêncio por ter se rendido mais uma vez a mim.
 Eu ocuparei o lugar de destaque em sua vida, arrancando-lhe as roupas, descabelando-te por inteiro, te vendo derramar gotas grossas de prazer e tristeza. Eu serei o desmanche da sua cama, o motivo da falta completa de consciência, serei a ressaca maldita que te faz acordar.
 Por fim, eu serei a tua navalha na carne, o ponto forte da sua loucura, o medo da altura e a redenção aos pecados. Derramarei em ti todas as injurias do mundo, te dando olhos de prostituta e coração de aço: sem paixão, sem amor, sem movimento que te mantenha vivo. Te farei máquina morta de pensamentos e individualidade. Te deixarei nu e gozarei de todas as suas verdades, pois eu sou pele morta em navalha, eu sou carne crua que te fere e maltrata, sou o espelho maldito que reflete suas impurezas, que te cospe como um ladrão, que te mente as suas certezas e que te engana como brisa leve de verão.

sábado, 8 de dezembro de 2012

O grito do silêncio.

Encontro-me em uma banheira imersa pela água, sem nada que cubra as minhas verdades. Os meus cabelos pingavam, os olhos injetados pelo vinho barato que acabara de tomar, a fumaça pairava no ar. Como aquele silêncio me fazia bem, demorei longos minutos para perceber que a vitrola tinha parado de tocar, demorei longos meses para abrir a minha boca novamente. Eu relembrei a nossa história, as palavras destorcidas cortadas pela minha língua afiada, as mãos entrelaçadas em público não devendo nada a ninguém, o maldito silêncio que ainda me atormenta.
 Quantos foram os sorrisos que eu já não calei, só pra você não perceber o obvio? Apenas minha garganta sabe o peso dos discursos que eu teimo em guardar em mim. Juras de amor, pedidos de perdão, o desejo de você ficar mais cinco minutos... O silêncio em te ver dormindo. Se ao menos você ouvisse o que eu não digo, se ao menos você lesse o seu nome nessas linhas tortas, se ao menos eu soubesse o motivo da sua cala... Se é indiferente ou falta de conhecimento, se é reciproco ou mero passatempo, se é paixão ou um pobre devaneio.
Acontece que aconteceu, eu fui obrigada a sair da inércia, obrigada a secar meus cabelos e a derrubar o vinho em minha camisa branca. A mancha vermelha ficou e a minha angustia também. Eu precisei me cobrir com a toalha, reanimar a vitrola, apagar o cigarro para ver que atrás de tanta fumaça, de tanto silêncio forçado, existia apenas um desejo.... Você.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A dama e a lotação.

Era uma vez em um passado não muito distante a história de amor de dois estranhos que se encontraram na lotação da lataria. A chuva caia de maneira descomunal, a cidade quase alagando, os cabelos desarrumados pelo vento, o guarda-chuva meio quebrado pendurado no pulso dela, nada sugeria que em um fim de tempo o coração ia bater mais forte. Alguns pontos a frente do que ela entrou, subiu um rapaz, distinto, misterioso, olhou-a de maneira intensa e tímida e sem dizer uma palavra os dois jovens foram seguindo viagem. O desconhecido esbarrou na dama sem querer, pediu desculpas e abriu um sorriso, ela contemplou aquele momento como se fosse o primeiro da vida deles, mas não teve coragem o suficiente para perguntar-lhe o nome. A chuva continuava caindo e o ônibus sempre correndo, em uma freada brusca, ela quase caiu e quando olhou pra cima, viu o amor da sua vida. A partir daí vocês já sabem o que aconteceu, assim como toda história começa com "era uma vez" termina com um belo "final feliz", não é preciso contar mais nada......
 Só que a história não terminou com um final feliz, o "era uma vez" martelou apenas uma vez na minha cabeça, até o sujeito abrir a boca e soltar uma voz completamente sem expressão e mostrar um sorriso horroroso. Eu ri da situação. Ri quando ele desviou o olhar quando eu olhei pra ele e ri mais ainda por fantasiar com um desconhecido, ri da minha má sorte, ri da minha infelicidade, ri dessa situação constrangedora que só se passou na minha cabeça. Quando passei pela curva em alta velocidade, eu parei de gargalhar internamente e percebi o que de fato estava acontecendo: Não era o dente separado ou a voz sem força, não era o olhar desviado, nem a falta de cavalheirismo, era você. Você era o motivo das fantasias com desconhecidos, da vontade de querer ocupar a minha cabeça com outra pessoa, qualquer um era mais acessível que você. O "era um vez" martelou uma única vez para nunca mais, não importava se eu tinha uma pessoa aos meus pés aturando minhas mudanças de humor, ou outra completamente satisfeita em me ter por perto, nenhum desses seres seria você. O motivo do meu silêncio, da minha vontade de permanecer sozinha, a origem e o fim de todos os meu pensamentos, era você. Se ao menos soubesse, se ao menos eu tivesse timbre suficiente para falar ou sussurrar que você é a razão de tanta cólera.... Mas eu não tenho essa coragem, enquanto isso eu deixo o "felizes para sempre" nos contos de fadas e continuo com a esperança de não ter que escrever o ponto final.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Até que o mundo acabe.

O tempo não era dos melhores, trovoava e relampejava. Eu contava, 5 segundos, 5 metros de distancia, estava se aproximando. A chuva ameaçava cair, mas ela não é como um cão que rosna e não morde, ela viria de uma forma ou outra. Eu tinha duas opções: Ficar na inércia e ver se o telhado ia ou não sair voando pela rajadas de vento, ou me aventurar no meio de uma cidade que entra em caos quando o tempo vira. Preferi ver a tempestade do lado de fora da bolha, eu tinha esquecido o meu guarda-chuva e como se fosse marcado no relógio, assim que sai do meu abrigo o primeiro pingo cai em meu couro cabeludo. Eu deveria ter seguido o conselho da minha mãe e ter levado o guarda-chuva na bolsa, as mães sempre tem razão, pensei eu enquanto corria.
   O vento era demasiadamente gelado, mesmo com calça e casaco sentia-o de encontro ao meu pulmão, de certa forma era acolhedor. Batia apenas quatro da tarde e eu sentia que já estávamos de madrugada, eu adoraria fugir disso tudo, só acelerando o relógio. Comecei a correr mais rápido, as luzes dos postes, as poças que eu sempre teimava em pisar, aquela chuva grossa e vento que tentava me derrubar, eram sinais claros que se eu não estava em um filme de terror de péssimo gosto, era o fim do mundo. Sim, o mundo estava acabando e eu corria para lugar algum.....
 Eu sempre fui assim, desde pequena, mal aprendi a andar e comecei a correr... Corri em meio a tropeços e arranhões, joelhos e cotovelos já tinham a vermelhidão que era a minha marca registrada. Meus pais me achavam apenas desastrada, mas eles não entendiam que o que eu realmente queria era ser mais rápida do que a realidade. Passei a correr para alcançar os meus amigos de escola, para ser a primeira a subir no castelo, para ficar no melhor lugar. Hoje em dia eu corro contra todos eles, corro contra os sorrisos mesquinhos que vejo em seus rostos tão patéticos, corro para descer mais rápido, já não preciso do melhor lugar, corro para encontrar o meu.....
 Passo rápido demais em uma poça e quase caio novamente, sinto que é um maldito sinal de que tudo irá voltar. Eu nunca aguentei o meu modo de viver, sempre me senti livre, mas nunca fui. Eles colocaram padrões e me fizeram acreditar que eu era livre dentro deles, eu era mais feliz quando não sabia disso. Continuo a correr, tenho plena consciência que meu celular está encharcado, tento liga-lo mas parece que a água deu cabo de sua vida, coisa que eu sempre tive vontade de fazer.
  Como eu já estava cansada de correr, cansada de ficar sem ar e as pessoas não entenderem, cansada da minha visão turva, me escoro numa parede, eu estava em um beco escuro iluminado apenas por uma lampada que brigava contra a tempestade. Eu queria tanto voltar para a minha bolha, maldito fim de mundo que me deu coragem para essa aventura. Enquanto mil pensamentos se contraiam em minha cabeça, uma coisa se mexeu, no beco uma coisa se mexeu! Eu esperei ansiosa para saber qual era o meu destino, já que era fim de mundo mesmo que eu aguentasse o que estivesse a minha espera. Grandes olhos castanhos surgiram na minha frente, seguidos de roxas olheiras e uma pálido cadavérico no rosto... Não era a morte, não era o fim do mundo, era uma coisa muito pior. Era a mentira dissolvida na chuva, era a realidade me encontrando e me arrastando. Já não sabia se estava louca ou completamente sã, passei anos tentando mostrar aos outros o que eu via agora, uma versão minha corrida pelos registros brutos de uma sociedade mesquinha. Eu via canceres em sua pele e agrotóxicos em seus lábios, eu via todos as doenças que o ser humano inventou e colocou a culpa na natureza, eu via o consumismo, o materialismo, todos os ismos e sismos que todos nós decoramos enquanto dormimos. Eu via a realidade e ela me encarava de volta, já não sentia mais nada, não haveria droga em farmácia suficiente para me convencer de que aquele puxão não fora verdadeiro. Puxada pelos cabelos eu entrei na realidade e eu detesto quando puxam meu cabelo.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Enquanto você dorme.





A frente fria estava chegando mais uma vez, não importa se é inverno ou verão, aonde eu moro o calor e  o frio se cruzam todos os dias. Eu adoro a neblina que fica de manhã na minha janela, o sol por trás dela deixa a minha manhã mais poética e o seu rosto mais livido. É claro que eu só consigo ver essa beldade nascer por que você sempre rouba as cobertas e eu acordo com frio e não consigo mais dormir. Não importo em levantar cedo, gosto de brincar com seus cabelos enquanto você não desperta, gosto de ver seus olhos fechados e sua boca muda, sem querer ofender. Eu tenho uma vontade enorme de acender meu cigarro e gravar essa imagem em minha cabeça: O céu meio azul, meio laranja, a nossa jasmim na janela pronta para ser regada, suas costas nuas protegidas por um fino lençol. O cheiro do meu cigarro te  faria acordar e eu preciso gravar isso em silêncio, como os filmes mudos que você adora inventar falas. Já são quase 6:00 da manhã e eu não me sinto cansada, a noite passada foi um tornado, acendemos um fogo perigoso e ele quase se apagou. Eu não me importo de levantar cedo e dormir tarde, não importo de aturar seu mau-humor, ou seus mistérios que me fazem entrar em desespero, não me importo com seu olhar atento a todos, só me importo com sua pele e com você todo.
 Agora acorde meu amor, mostre teus olhos pra mim, deixe eu sentir seus lábios e ver você se espreguiçando e abrindo os braços pra eu deitar, acorde e deixe seu sono para outro corpo, eu já te vi dormir muito, deixe sua energia para mim também. Acorde, acorde, quero poder colar meus ouvidos em teu peito e marcar seus batimentos cardíacos. Acorde, para eu poder sentir o cheiro da tua nuca e os músculos do teu braço. Agora acorde meu amor, abra os olhos para eu te encontrar e me perder, eu gosto do labirinto, mas amo a sua íris. Você não entende minha urgência, mas entenda, há um incêndio em nossos corações e eu preciso de seus olhos para ter a certeza, acorde para ver o que eu vejo! Acorde, meu amor, antes que nós sejamos queimados em silêncio.

domingo, 16 de setembro de 2012

Tempo.

Aonde quer que você esteja, meu bem
No paraíso, no sítio, ou ainda perambulando pela Terra
Eu espero que você saiba que sempre será meu pai, meu Rubem
E que nossa eterna batalha, jamais virou uma guerra.

Eu espero que você saiba, meu amor
Que não importa se foram em lagos ou praias
Se te rendeu sofrimento, sorrisos ou dor
Que você tenha encontrado com seu pirata.

Navegue no mundo e veja o que aconteceu
Foram tantos caminhos que essa geração percorreu
Herdamos os olhos, o cheiro e o sabor
Carregando no peito esse eterno amor.

Se falo de você não é por vaidade
Não importam os anos, existe sempre a saudade
Que me carrega e me leva até você
Por que no fim nossas linhas sempre vão transcender.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A água do meu vinho





Se ao menos eu soubesse o que passa em suas taças
Se são amores, rompantes, raiva ou desilusão
Eu apenas queria que meus pés criassem asas
Para assim eu desabar e cravar meu corpo em teu chão.

Se ao menos eu soubesse de onde vem a sua água
Para poder romper e acabar com seus espinhos
Penetrando em teu mundo, vendo sua alma
Afogada em tantos goles de vinho.

Queria eu ter as flores que vejo em seu olhar
Possuir a poeira do seu móvel antigo
Para acompanhar as pegadas do seu calcanhar
E alcançar por um último seu desejado umbigo.

Eu vou podando todos os meus galhos
E desta maneira, águo o nosso vinho
Queria achar alguns atalhos
Para eu poder encontrar o seu caminho.






sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Inocente amor.








 Os seus olhos guardei em um pote
E o seu corpo inteiro está em meu coração
Suas lembranças estão no meu caixote
E eu digo, suas orelhas nunca escutaram o meu Não.

Se te tenho comigo, te levo aonde eu for
Transgredindo dimensões, formando o laço eterno
Que me amarra e me ata ao teu inocente amor
Falando comigo no seu silêncio interno.

Tua vida habita em mim, minha fera felina
E não encontro em canto algum a tua malícia
Eu libero em ti a minha ocitocina
Tentando reviver a tua carícia.

Não tenho medo da morte, mas sim da inexistência
Que perpetua nos seres vivos e carnais
Vejo no seu olhar sua eterna essência
E a promessa de voltar a repousar no meu cais.




quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Antes que tudo termine.





Vocês devem entender antes de começar a ler este texto, que o início é apenas o fim e a vida na verdade é apenas um piscar de olhos....


.... Nunca pensei em morrer desse jeito, com sangue escorrendo, os olhos abertos e uma multidão á minha frente. Nunca pensei que uma bala atravessaria minha cabeça, um tiro que nem era pra mim.
   Acordei as cinco da manhã de uma quinta-feira fria e nebulosa, eu não sei se levantei com o pé esquerdo ou era a passagem de Vênus pela Terra que me deixou daquele jeito. De uma maneira sútil e desconcertante eu deixei o porta-retratos cair no chão e percebi que aquela foto já não tinha mais importância. "O que diabos aconteceu comigo?" foi a primeira coisa que eu pensei quando me olhei no espelho, os cabelos desgrenhados, o rímel borrado e indícios de que um furacão tinha passado por mim. Eu já não aguentava aquela realidade, eram cartazes de sorrisos, comerciais de pessoas felizes, novelas e mais novelas sobre histórias de amor que nunca existiram. Será que eu existi? Será que nós existimos?
 Eu  me arrumo para meu trabalho, saio de casa e vejo meu gato me olhando pela janela, malditos olhos amarelos que me invadem e me deixam tão perdida em seu pelo preto, eu queria poder entrar em seus pensamentos e descobrir de onde vem tanta calma, tanta ousadia. Eu amava aquele olhar, por que de alguma maneira me lembrava tanto você: Do seu mau humor habitual, dos seus inúmeros corações que eu podia amar, das suas meias pelo chão. Não adianta chorar pelo que passou, nem pelo tornado que se instalou no meu peito, você é passado e eu o seu defeito.
 "Chega" grito silenciosamente para mim mesma, "nada mais irá me lembrar você, nada mais irá me lembrar da minha vida vazia, do meu trabalho escravo, das minhas roupas chinesas, dessas arvores caídas e tristes, desses pássaros engaiolados. Do que me adianta ser livre se continuo presa em liberdade? Se a minha prisão são apenas minha idéias e lembranças de uma realidade que nunca existiu..." Eu nunca completei o raciocínio, eu nunca desejei morrer, apenas silenciar um presente que batia em minha cara, eu nunca desejei aquela bala em minha cabeça. Mas vocês devem entender antes determinar de ler este texto, que o início é apenas o fim e a vida na verdade é apenas um piscar de olhos e os meus cílios foram virados para você.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Nossos umbigos tão egoístas.



Eu queria plantar nos nossos umbigos uma cria de felicidade e simplicidade, eu iria regar com suas gotas essa minha muda tão calada. Eu iria prende-la com sua terra e usar seu olhar como adubo, por que não há nada mais divino do que a prisão dos seus olhos. Ela iria crescer verde e fazer dos nossos umbigos seu prato de flores e porto-seguro, mas nossos umbigos são tão egoístas, nós não permitimos que nada cresça neles e deixamos o natural no canteiro da rua. É assim que nossa muda tão calada cresce, sempre aos olhos de outros, nunca na nossa frente. Uma vez eu fui na esquina aonde a deixamos e ela já estava grande, colhi alguns frutos, uns eram doces, outros amargos, era a mistura de nossos sabores.
 Depois de ter visto a natureza fazer seu papel fora de mim, eu percebi que estou presa nessa grande caixa que é meu coração, se o errado vem eu digo sim, se o certo vem eu digo não. O que o meu umbigo teme é a mesma coisa que o seu: Que seja apenas um arbusto, sem frutos, nem cor. O meu problema é que eu adoro o verde e fico fascinada quando o encontro em você e o amarelo do sol já não me cega mais, nem o vento frio corta a carne.
Eu sei que em algum lugar, em algum umbigo menos egoísta e medroso ou em algum canteiro mal cuidado, o nosso arbusto ou arvore cresceu e agora da sombra para quem sofre com o calor, como eu. Nosso arbusto de sonhos cresceu e se escondeu da gente.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

A máquina de homens

Todos nós evoluímos, perdemos a maioria de nossos pelos, alguns já não tem siso e o mais importante: aprendemos a pensar. Construímos prédios, criamos raízes, louvamos um Deus e nos matamos.
 Levantamos impérios e destruímos o natural, nossa comida que é tão farta e rica, nos mata lentamente com seus pesticidas e melhoramentos. O homem brinca de Deus e sinto que Deus brinca de ser homem. Nosso ar cada vez mais poluído, nossos rios são negros e nossas florestas vazias, será mesmo que aprendemos a pensar, ou apenas a matar?
  Tantos anos de evolução, tantos sacrifícios, olhem nossas máquinas! Rádios, televisões, internet, temos o mundo em nossas mãos e mal sabemos usá-lo. Aproximamos os mais afastados e isolamos os mais próximos, qual é a nossa lógica?  Avançamos a passos largos em tecnologia, mas nossos corações endureceram e nossas almas se tornaram nulas. Quantas pessoas nós vemos pregando a palavra de Jesus, quantas delas amam o próximo como a si mesmo? Fomos invadidos pela hipocrisia, mentiras, ciúmes e ganancias. Somos homens e lobos, corremos atrás do nosso próprio rabo. Batemos nosso cajado no chão, mas desviamos os olhos de nossas atitudes, coloque na mão de Deus, esqueça suas atitudes.
 Falamos mais do que fazemos, destruímos mais do que qualquer coisa. O ódio, a cobiça e a ganância nos dominaram, entrando em nosso DNA e passando essa maldição para nossos filhos. Falhamos muito, mas poucos tentam reparar isso, nos tornamos cegos que tateiam navalhas, nos cortamos e não sentimos, somos uma morfina ambulante. Somos todos reis e rainhas de fantasias, somos a mente que sonha, a mão que derruba, a árvore da vida. Somos tudo e não somos nada, somos na verdade completas máquinas.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Conto do Vigário.

 Era uma espécie de furacão de sentimentos, um misto sinistro de mentira e ganância, percebo aos poucos que me tornei adulta. Não digo isso pelas contas a pagar, a fila a esperar, ou as responsabilidades, digo isso por que só quando crescemos é que descobrimos do que o ser humano é capaz de fazer: Enganar. Amamos coisas e usamos pessoas, escolhemos nossas roupas, gastamos nosso tempo e juntamos dinheiro, para que no final das contas todos terminem da mesma maneira, mortos.
A verdade é que a mesma mão que te abençoa é a que te derruba, e a vida vai te oferecer as mesmas coisas que você oferece a ela. Seja um ilusionista e viverá conforme suas idéias, uma vida iludida que mais cedo ou mais tarde vai te tombar e podar seus ramos negros e amaldiçoados. 
 Não adianta fingirmos ser o que não somos, é como aquela velha história do vidro que se passa pelo diamante: Pode imitar a beleza, mas jamais terá o valor e a rigidez que ele possuí, se cair quebra e não existe mais. É exatamente assim que algumas pessoas são, comuns pensando que são raras e caras. O seu valor não está nas suas palavras, nem no seu trabalho, está em você, por que você é aquilo que você faz.  
Plantamos o que colhemos e o seu fruto é amargo e seco, assim como seu caráter. Foram tantos jogos, quantos você já massacrou? E dessas batalhas, quanto de você te restou? Se foi pouco ou nada mais, eu já não sei, mas sinto pena e nojo do Vigário que eu encontrei.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Eu tentei. Tentei de todas as formas mostrar que sou outra pessoa, com outros pensamentos e sorrisos. Tentei me reescrever e consegui. Me tornei personagens e me encontrei neles: Mocinhas, vilãs, desprotegidas, perigosas. Eu tentei, tentei te avisar dos perigos que eu trazia comigo e do silêncio que acompanha minhas vírgulas. Eu tentei te avisar de tudo, porém esqueci da minha inconstância e do meu orgulho, meu bem. E eu te avisei tanto, querido, que suas palavras não te salvariam do grande purgatório que é meu coração.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Contratempo.

Quando o seu tempo for o meu, querido.
 E o meu relógio entrar em você
 Então nossos ponteiros irão se encontrar
 E quem sabe os primeiros cinco segundos de surpresa
 Voltem para o seu rosto.

 Não quero meus olhos perdidos na noite cinzenta
 Nem meu corpo nu sozinho em uma cama quente
 Abraços e afetos são distribuídos enquanto nos vemos.
 Depois restos, nada mais.

 O resto do seu dia e de suas horas livres
 O resto das pernas e braços caídos pelo caminho
 O inicio de dentes se escondendo e as ameaças vivendo
 O fim do que veio carregado pelo vento.

 É o inicio, o meio e o fim do tempo
 O tempo dos olhos apaixonados e das mãos grudadas
 O tempo da cama fria à sua espera
 O tempo agoniando de ter que esperar algo que nunca vai aparecer.